quarta-feira, 12 de agosto de 2015

No país do sufoco

Como está lotado esse trem, nossa, que sufoco! Comentou um usuário do sistema público de transporte ao entrar em um dos vagões em uma manhã fria e de garoa fina. Por ser um dia chuvoso, hoje até que está bom, respondeu outro parecendo satisfeito com aquela lotação. E assim eles seguiram a seus destinos conversando e ao mesmo tempo reclamando da situação presente. Outros usuários engrossaram o tom daquela conversa e o que eu pude ouvir, era uma insatisfação coletiva. Não participei do desabafo daqueles usuários, mas segui pensando no que ouvi, um sufoco! Era a pura realidade. Nos últimos anos estamos sendo transportados no aperto, no gargalo, e como disse o usuário, no sufoco. Olhei em minha volta e aparentemente percebi que não havia lugar para mais ninguém, e eu ainda estava na metade do trajeto, estava no sufoco, segurando firmemente nas barras de ferro tentando permanecer no lugar onde estava, mas fui sendo empurrado pelas pessoas que não paravam de entrar. Minha esperança seria a próxima estação, quem sabe sairia mais gente do que entraria. Era uma estação de baldeação e ficava no coração financeiro da cidade, estação paraíso.
Houve um alívio, mas entrou uma garota que parecia ter acabado do sair do banho e parou na minha frente tendo os cabelos molhados e ainda cheirando a shampoo que despertou uma alergia incontida transformando em espirros que eu tentei sufocar. Soltei um pequeno espirro que saiu meio abafado pela mão e tentei evitar que as bactérias proliferassem pelo ar e colocando o livro na frente da boca, novamente percebi o sufoco. Um rapaz enorme, que estava curvado devido o seu tamanho, com uma mochila nas costa e fones nos ouvidos, não foi tão comedido. Soltou sem nenhum receio ou constrangimento um espirro que pude sentir o vento sobre a minha cabeça, outro sufoco. Duas estações passaram. Observei que em outra porta, havia um bom espaço que caberia muita gente, não era necessário essa aglomeração justamente naquela porta. Resolvi sair do meu lugar e ocupar um espaço do outro lado. Fui decepcionado. A razão daquele espaço era que alguém acabara de vomitar e o chão ainda estava sujo, as pessoas evitavam o lugar, que sufoco!
Próxima estação, Sé, informou o condutor. Vou sair desse sufoco, pensei. Novamente me enganei. O sufoco aumentou. Em dias de chuva sempre as dificuldades são maiores, principalmente nessa área de transporte público. Subi a plataforma para fazer a baldeação e tomei um susto. Até as escadas rolantes no sentido contrário ao meu destino estavam desligadas para evitar acidente devido a multidão que seguia apressada. Pensei em entrar pelo corredor dos idosos, dos deficientes, pois para complicar a situação, a minha labirintite nesse dia estava super ativada. Optei por não passar por essa vergonha caso o funcionário ali de plantão me barrasse não me permitindo entrar. Tive que encarar e me deixar ser levado pela multidão em polvorosa. Depois de esperar pelo quarto trem e de um empurra-empurra danado, fui jogado para dentro do coletivo pelas pessoas que estavam atrás de mim. Finalmente eu entrei. Era só mais uma estação e eu sairia do sufoco. Ainda deu tempo de ver uma breve, mas não menos ríspida discussão que por pouco não gerou agressão e violência.
Notei que em virtude do sufoco em que vivemos, as pessoas, nas quais me incluo, parecem que estão cada dia mais encolerizadas, desencadeando a ira, irritação e a violência. E por menor que seja a ofensa sofrida, causa uma ferocidade digna somente de animais, como um urso faminto, por exemplo, que depois de um longo período de hibernação sai a procura da presa indefesa que se torna avultada em seres humanos. Não importa o sufoco que passamos, o importante é não fazer dele um alimento para despertar o urso que hiberna em nosso interior, e assim, não alimentá-lo. E assim, como a observação de um dos usuários que parecia adaptado ao sufoco que vivia, percebi que eu, igualmente estava psico adaptado. Não é somente o transporte público que está um sufoco. Tudo em nosso redor assim está. O que dizer da saúde pública, da educação, do trânsito, da segurança, da classe política então, viiiixee, meu Deus, quanto sufoco!

Enfim, sai daquele sufoco e pude respirar aliviado. Resumindo, acredito que sempre vivi no sufoco, mas agora sinto que o mais importante e vital, é não deixar que ele usurpe o nosso ser e nos sufoque, abafando o nosso bom humor, a cordialidade, a gentileza, a educação, a tolerância, pois embora vivendo no país do sufoco, não precisamos depender dele, porque, como diz a canção: é preciso viver, e viver não é brincadeira não...chega de sufoco.

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